sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Heroes - Heróis





Estou viciado na série HEROES. Mas isso não é vantagem. 
Durante toda minha vida convivi sonhando com meus heróis. Filmes, livros, quadrinhos, onde quer que estivessem eu ia em sua busca. Batman, Jack Bauer, Rock Balboa, X-Men, Robin Hood ou nossos pais...não importa. Sempre me senti melhor quando ouvia suas estórias - as aventuras, as façanhas, os sofrimentos, as transformações.

Heróis são modelos. Não modelos de comportamento, simplesmente. Mas modelos que refletem nossas experiências pela vida: nossas dúvidas, nossos sonhos, nossas aspirações, nossos medos e inseguranças. Os heróis nos ensinam como passar por nossos sofrimentos (e não sofrem pela gente?) e especialmente nos apontam caminhos para superarmos as dificuldades da vida.

Resolvi dividir um pouco disso, dessa minha busca e de meu amor pelos HEROES.

Abaixo, trechos de "O Poder do Mito", em que Bill Moyers entrevista Joseph Campbell - na minha opinião o maior mitologista que a humanidade já produziu. Para quem se atrever nessa jornada...boa leitura.

Que a força esteja com vocês.

A SAGA DO HERÓI
"Além disso, não precisamos correr sozinhos o risco da aventura, pois os heróis de todos os tempos a enfrentaram antes de nós. O labirinto é conhecido em toda a sua extensão. Temos apenas de seguir a trilha do herói, e lá, onde temíamos encontrar algo abominável, encontraremos um deus. E lá, onde esperávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos. Onde imaginávamos viajar para longe, iremos ter ao centro da nossa própria existência. E lá, onde pensávamos estar sós, estaremos na companhia do mundo todo."
JOSEPH CAMPBELL



MOYERS: Por que há tantas histórias de heróis na mitologia?
CAMPBELL: Porque é sobre isso que vale a pena escrever. Mesmo nos romances populares, o protagonista é um herói ou uma heroína que descobriu ou realizou alguma coisa além do nível normal de realizações ou de experiência. O herói é alguém que deu a própria vida por algo maior que ele mesmo.
MOYERS: Então, em todas essas culturas, qualquer que seja a vestimenta particular que o herói esteja usando, em que consiste a proeza?
CAMPBELL: Bem, há dois tipos de proeza. Uma é a proeza física, em que o herói pratica um ato de coragem, durante a batalha, ou salva uma vida. O outro tipo é a proeza espiritual, na qual o herói aprende a lidar com o nível superior da vida espiritual humana e retorna com uma mensagem.
A façanha convencional do herói começa com alguém a quem foi usurpada alguma coisa, ou que sente estar faltando algo entre as experiências normais franqueadas ou permitidas aos membros da sociedade. Essa pessoa então parte numa série de aventuras que ultrapassam o usual, quer para recuperar o que tinha sido perdido, quer para descobrir algum elixir doador da vida. Normalmente, perfaz se um círculo, com a partida e o retorno.
Mas a estrutura e algo do sentido espiritual dessa aventura já podem ser detectados na puberdade ou nos rituais de iniciação das primitivas sociedades tribais, por meio dos quais uma criança é compelida a desistir da sua infância e a se tornar um adulto – para morrer, dir se ia, para a sua personalidade e psique infantis e retornar como adulto responsável. E essa é uma transformação psicológica fundamental, pela qual todo indivíduo deve passar. Na infância, vivemos sob a proteção ou a supervisão de alguém, entre os quatorze e os vinte e um anos – e caso você se empenhe na obtenção de um título universitário, isso pode prosseguir talvez até os trinta e cinco. Você não é, em nenhum sentido, auto responsável, um agente livre, mas um dependente submisso, esperando e recebendo punições e recompensas. Evoluir dessa posição de imaturidade psicológica para a coragem da auto responsabilidade e a confiança exige morte e ressurreição. Esse é o motivo básico do périplo universal do herói – ele abandona determinada condição e encontra a fonte da vida, que o conduz a uma condição mais rica e madura.
MOYERS: Mas os heróis não são todos homens?
CAMPBELL: Oh, não. O macho tem normalmente o papel de destaque apenas por causa das condições de vida. Ele está lá fora, no mundo, e a mulher está em casa. Mas entre os astecas, por exemplo, que dispunham de vários céus, para onde as pessoas iam de acordo com a morte que tivessem, o céu dos guerreiros mortos em batalha é o mesmo das mães que morrem em trabalho de parto. Dar à luz é incontestavelmente uma proeza heróica, pois é abrir mão da própria vida em benefício da vida alheia.
MOYERS: Você não acha que perdemos essa verdade, na nossa sociedade, ao considerarmos mais heróico partir para o mundo e fazer dinheiro do que ficar em casa cuidando dos filhos?
CAMPBELL: Fazer dinheiro provoca mais repercussão. Você deve conhecer o adágio: Se um cão morde um homem, isso não é nada; mas se um homem morde um cão, isso dá uma história sensacional. Assim, aquilo que acontece repetidas vezes, por mais heróico que seja, não é novidade. A maternidade deixou de ser notícia, dir se ia.
MOYERS: Qual é o significado das provações, dos testes, das experiências penosas do herói?
CAMPBELL: Se você colocar as coisas em termos de intenções, as provações são concebidas para ver se o pretendente a herói pode realmente ser um herói. Será que ele está à altura da tarefa? Será que é capaz de ultrapassar os perigos? Será que tem a coragem, o conhecimento, a capacidade que o habilitem a servir?
MOYERS: Na nossa cultura de religião fácil, atingida sem esforço, parece que esquecemos que as três grandes religiões ensinam que as provações da jornada heróica são parte significativa da vida, e que não há recompensa sem renúncia, sem pagar o preço. O Alcorão diz: “Você acha que pode ter acesso ao Jardim das Delícias sem passar pelas mesmas provações daqueles que o antecederam?” E Jesus diz, no Evangelho de São Mateus: “Grande é a porta e estreito o caminho que conduz à vida, e poucos os que o encontram”. E os heróis da tradição judaica e nfrentam duros testes antes de chegar à redenção.
CAMPBELL: Ao se dar conta do verdadeiro problema – perder se, doar se a algum objetivo mais elevado, ou a outrem – você percebe que essa, em si, é a provação suprema. Quando deixamos de pensar prioritariamente em nós mesmos e em nossa auto-preservação, passamos por uma transformação de consciência verdadeiramente heróica.
E todos os mitos lidam justamente com a transformação da consciência, de um tipo ou de outro. Você vinha pensando de um certo modo, agora tem de pensar de um modo diferente.
MOYERS: Como é que a consciência se transforma?
CAMPBELL: Ou pelas próprias provações ou por revelações iluminadas. Tudo gira em torno de provações e revelações.
MOYERS: Não existe um momento de redenção em todas essas histórias? A mulher é salva do dragão, a cidade é poupada da destruição, o herói se livra do perigo na hora H.
CAMPBELL: Bem, sim. Não haveria proeza heróica se não houvesse um ato supremo de realização. Eventualmente pode acontecer de um herói fracassar, mas este será normalmente representado como uma espécie de palhaço, alguém com pretensões além do que pode realizar.
MOYERS: O heroísmo tem um objetivo moral?
CAMPBELL: O objetivo moral é o de salvar um povo, ou uma pessoa, ou defender uma idéia. O herói se sacrifica por algo, aí está a moralidade da coisa. Mas, de outro ponto de vista, é claro, você poderia dizer que a idéia pela qual ele se sacrificou não merecia tal gesto. E um julgamento baseado numa outra posição, mas que não anula o heroísmo intrínseco da proeza praticada.
MOYERS: Os seus estudos de mitologia por acaso o levaram a concluir que um esforço humano singular, um padrão uniforme de aspiração e pensamento humanos, constitui para toda a humanidade algo que temos em comum, quer tenhamos vivido há um milhão de anos, quer venhamos a viver daqui a mil anos?
CAMPBELL: Existe um certo tipo de mito que pode ser chamado de busca visionária, partir em busca de algo relevante, uma visão, que tem a mesma forma em todas as mitologias. E o que tentei mostrar no primeiro livro que escrevi, O herói de mil faces. Todas essas diferentes mitologias apresentam o mesmo esforço essencial. Você deixa o mundo onde está e se encaminha na direção de algo mais profundo, mais distante ou mais alto. Então atinge aquilo que faltava à sua consciência, no mundo anteriormente habitado. Aí surge o problema: permanecer ali, deixando o mundo ruir, ou retornar com a dádiva, tentando manter se fiel a ela, ao mesmo tempo em que reingressa no seu mundo social. Não é uma tarefa das mais fáceis.
MOYERS: Então o herói é movido por alguma coisa, ele não vai em frente apenas por ir, não é simplesmente um aventureiro.
CAMPBELL: Existem heróis das duas espécies, alguns escolhem realizar certa empreitada, outros não. Num tipo de aventura, o herói se prepara responsavelmente e intencionalmente para realizar a proeza. Por exemplo, Atena ordenou a Telêmaco, filho de Ulisses: “Vá procurar o seu pai”. Essa busca do pai é uma aventura heróica superior, para os jovens. E a aventura de procurar o seu próprio horizonte, a sua própria natureza, a sua própria fonte. Você se compromete nisso intencionalmente. Ou existe a lenda sumeriana da deusa do céu, Inanna, que desceu aos mundos subterrâneos e enfrentou a morte para trazer seu amado de volta à vida.
Depois existem aventuras às quais você é lançado – como alistar se no exército, por exemplo. Não era sua intenção, mas de repente você se vê ali. Você enfrentou morte e ressurreição, vestiu um uniforme e se tornou outra criatura.
Uma figura de herói que aparece com freqüência nos mitos célticos é a do príncipe caçador, que foi atraído pela astúcia do cervo a um canto da floresta onde nunca havia estado antes. O animal passa então por uma transformação, tornando se a Rainha da Colina das Fadas, ou algo parecido . É o tipo de aventura em que o herói não tem idéia do que está fazendo, mas de repente se surpreende num mundo transformado.
MOYERS: O aventureiro que se envolve nesse tipo de situação é um herói, no sentido mitológico?
CAMPBELL: Sim, porque ele está sempre pronto para enfrentar a situação. Nessas histórias, a aventura para a qual o herói está pronto é aquela que ele de fato realiza. A aventura é simbolicamente uma manifestação do seu caráter. Até a paisagem e as condições ambientes se harmonizam com sua presteza.
MOYERS: Hoje parece que reverenciamos celebridades, não heróis.
CAMPBELL: Sim, e isso é muito mau. Certa vez foi feita uma pesquisa numa escola secundária do Brooklin, que perguntava: “O que você gostaria de ser?” Dois terços dos estudantes responderam: “Uma celebridade”. Eles não tinham noção da necessidade de dar a si próprios a fim de realizar alguma coisa.
MOYERS: Só queriam ser conhecidos.
CAMPBELL: Só queriam ser conhecidos, ter fama – nome e fama. Isso é muito mau.
MOYERS: Mas uma sociedade precisa de heróis?
CAMPBELL: Sim, penso que sim.
MOYERS: Por quê?
CAMPBELL: Para seguir algum rumo. A nação necessita, de algum modo, de uma intenção, a fim de atuar como um poder uno.
MOYERS: Às vezes me parece que devemos ter pena do herói e não admiração por ele. Muitos deles sacrificaram suas próprias necessidades em benefício dos outros.
CAMPBELL: Todos o fizeram.
MOYERS: Não é verdade que muitos heróis mitológicos morrem para o mundo? Eles sofrem, são crucificados.
CAMPBELL: Muitos doam suas vidas. Mas então o mito afirma que da vida sacrificada nasce uma nova vida. Pode não ser a vida do herói, mas é uma nova vida, um novo caminho de ser, de vir a ser. A história de Jonas na barriga da baleia é um exemplo de tema mítico praticamente universal: o herói é engolido por um peixe e volta, depois, transformado.
MOYERS: Por que o herói precisa fazer isso?
CAMPBELL: É uma descida às trevas. Psicologicamente, a baleia representa o poder de vida contido no inconsciente. Metaforicamente, a água é o inconsciente, e a criatura na água é a vida ou energia do inconsciente, que dominou a personalidade consciente e precisa ser desempossada, superada e controlada.
No primeiro estágio dessa espécie de aventura, o herói abandona o ambiente familiar, sobre o qual tem algum controle, e chega a um limiar, a margem de um lago, ou do mar, digamos, onde um monstro do abismo vem ao seu encontro. Aí há duas possibilidades. Numa história do tipo daquela de Jonas, o herói é engolido e levado ao abismo, para depois ressuscitar; é uma variante do tema da morte e ressurreição.
Outra possibilidade é o herói, ao defrontar se com o poder das trevas, vencê-lo e matá-lo, como Siegfried e São Jorge fizeram quando enfrentaram o dragão. Mas, como Siegfried aprendeu, é preciso provar o sangue do dragão para incorporar alguma coisa do seu poder. Quando matou o dragão e provou do seu sangue, Siegfried ouviu a música da natureza. Ele transcendeu sua humanidade e uniu se novamente aos poderes da natureza, que são os poderes da vida, dos quais somos afastados por nossas mentes.
MOYERS: Por que você intitulou seu livro O herói de mil faces?
CAMPBELL: Porque existe uma certa seqüência de ações heróicas, típica, que pode ser detectada em histórias provenientes de todas as partes do mundo, de vários períodos da história. Na essência, pode se até afirmar que não existe senão um herói mítico, arquetípico, cuja vida se multiplicou em réplicas, em muitas terras, por muitos, muitos povos. Um herói lendário é normalmente o fundador de algo, o fundador de uma nova era, de uma nova religião, uma nova cidade, uma nova modalidade de vida. Para fundar algo novo, ele deve abandonar o velho e partir em busca da idéia semente, a idéia germinal que tenha a potencialidade de fazer aflorar aquele algo novo.
MOYERS: Por que essas histórias são tão importantes para a espécie humana?
CAMPBELL: Depende do tipo de história. Se a história representa o que se pode chamar de uma aventura arquetípica – a história de uma criança se tornando um jovem, o despertar do novo mundo que se abre para a adolescência, sempre ajuda a fornecer um modelo para acompanhar esse desenvolvimento.
MOYERS: E se o herói retorna da provação e o mundo recusa aquilo que ele traz para oferecer?
CAMPBELL: Esta, é claro, é uma experiência comum. Não que o mundo recuse sempre a dádiva, mas ele simplesmente não sabe como recebê-la, como institucionalizá-la...
MOYERS: Como fazer para destruir o dragão em mim? Como é a jornada que cada um de nós tem de empreender, que você chama “a alta aventura da alma”?
CAMPBELL: Minha fórmula geral, para meus estudantes, é: “Persiga a sua bem aventurança”. Descubra onde ela está e não tenha medo de segui Ia.
MOYERS: É o meu trabalho ou a minha vida?
CAMPBELL: Se o trabalho que você faz é o que você escolheu porque encontra prazer nele, então é o trabalho. Mas se você pensa: “Oh, não, eu não devia estar fazendo isso!”, então é o dragão espreitando, dentro de você. “Não, não, eu não podia ser escritor” ou “Não, não, eu não podia de modo algum estar fazendo o que fulano faz.”.
A aventura é a sua recompensa, mas é necessariamente perigosa, incluindo possibilidades tanto negativas quanto positivas, umas e outras fora de controle. Estamos seguindo o nosso próprio caminho, não O caminho do papai ou da mamãe. Com isso estamos, sem proteção, num campo de poderes superiores aos que conhecemos. É preciso ter alguma noção das possibilidades de conflito nesse campo, e, para isso, algumas boas histórias arquetípicas, como esta, podem preparar nos para o que nos aguarda. Se formos imprudentes e, ao mesmo tempo, estivermos inabilitados para o papel que nos destinamos, esse será um casamento demoníaco, um verdadeiro desastre. Mesmo assim, porém, uma voz de resgate talvez seja ouvida, para converter a aventura numa glória para além de qualquer coisa jamais imaginada.
O importante é viver a vida em termos de experiência e, portanto, de conhecimento, do mistério intrínseco da vida e do seu próprio mistério. Isso confere à vida uma nova radiância, uma nova harmonia, um novo esplendor. Pensar em termos mitológicos ajuda o a se colocar em acordo com o que há de inevitável neste vale de lágrimas. Você aprende a reconhecer os valores positivos daqueles que aparentam ser os momentos e aspectos negativos da sua vida. A grande questão é saber se você vai dizer, de coração, um sonoro sim ao seu desafio.
MOYERS: A saga do herói?
CAMPBELL: Isso, a saga do herói, a aventura de estar vivo.


Família Trapo: quando o humor era engraçado.


FAMÍLIA TRAPO:



Quando o humor era engraçado.


O elenco só tinha estrelas: Otelo Zeloni era Pepino Trapo, o patriarca italiano casado com Helena, vivida por Renata Fronzi. O cunhado de Helena, Carlo Bronco Dinossauro, personagem de Ronald Golias, era uma verdadeira figura, pois não trabalhava e vivia com a família, que ainda tinha os filhos de Pepino e Helena, Verinha (Cidinha Campos) e Sócrates (Ricardo Corte Real). O mordomo era Gordon, papel de ninguém menos que Jô Soares.A direção era de Nilton Travesso, Manoel Carlos e Tuta de Carvalho. Os textos eram escritos por Carlos Alberto de Nóbrega, Manoel Carlos e Jô Soares.O programa era apresentado nas noites de sábado, às 19 horas, mas não era ao vivo. As gravações, em única sessão, aconteciam no Teatro Record ou Teatro Paramount, às sextas-feiras. O público lotava o teatro, mesmo com cobrança de ingressos. Segundo relatos do elenco, muita gente ficava de fora.



A atração era exibida pela TV Record no sábado e, no dia seguinte, por avião, as fitas seguiam para diversas emissoras parceiras espalhadas pelo Brasil. Naquela época não existia transmissão via satélite nem rede de afiliadas.Também foram realizadas apresentações de "Família Trapo" em outros Estados. Todas foram gravadas pela TV Record e exibidas.

Era impressionante a capacidade de improvisação do elenco, principalmente Ronald Golias e Otelo Zeloni, que incluíam diversos "cacos" no texto. Eram comuns também as risadas dos artistas durante o programa, especialmente quando Golias saía do roteiro e aprontava das suas.Com a queda da audiência da TV Record, que sofreu sucessivos incêndios, e o crescimento da TV Globo, o programa perdeu força e foi extinto em 1971. A maioria dos artistas do elenco foi contratado pela TV Globo, como Jô Soares, por exemplo, que passou a estrelar "Faça Humor, Não Faça Guerra".


Enredo

O nome Família Trapo foi retirado da família Von Trapp, do filme A Noviça Rebelde. Era uma família confusa e divertida, que vivia em volta do Carlos Bronco Dinossauro (Ronald Golias), que era irmão de Renata Trapo, a mãe (Renata Fronzi). Era o cunhado folgado. Tinha como sua vítima maior o seu cunhado Peppino Trapo (Otello Zeloni), o pai. Verinha, a filha (Cidinha Campos) e o filho Sócrates (Ricardo Corte Real).

Os episódios giravam em torno do Bronco, que implicava com todos os componentes da família. Brincava com o Peppino Trapo, que a "..Itália era uma bota". E ainda falava que tinha "... uma fazenda em Mato Grosso, que era imensa e que media 3m x 4m". No especial em que aparece Pelé, que não é reconhecido por Bronco (que ainda por cima dá algumas dicas ao "Rei" de como jogar futebol), ele cantarola um hino fascista para irritar Zeloni. Este episódio faz parte de um dos dois videotapes, que sobraram da Família Trapo.

Receberam diversos convidados como os futebolistas Pelé (Santos), Zico (Flamengo), Raul Plasmann - (goleiro galã do Cruzeiro), e atual comentarista esportivo da Rede Globo; e os cantores Roberto CarlosElis Regina etc. Sonia Ribeiro fez participação especial como arrumadeira da família.PlatéiaAs apresentações eram "ao vivo", e os improvisos iam "ao ar", deixando o programa mais engraçado ainda. A platéia era animada e enchiam as dependências do Teatro Record (Consolação). Aliás, o povo aglomerado parava a rua da Consolação. Após um incêndio o programa passou a ser feito nos estúdios da TV Record (na avenida Miruna), e depois no Teatro Paramount, atual Teatro Abril, em São Paulo. O programa foi líder de audiência no horário, durante três anos consecutivos.

As garotas ficavam na saída do teatro esperando o Socrátes (Ricardo Corte Real) sair pelo porta dos artistas, para ser agarrado por elas.
Ficha técnicaEmissora: TV Record - Canal 7 de São Paulo (Rede Record)
Ano de Produção: 
1967 - 1971 - Feito em preto e branco
Produção: Equipe "A" - 
TV Record - Antonio Augusto Amaral de Carvalho, Raul Duarte, Nilton Travesso e Manoel Carlos.
Autores: 
Carlos Alberto de Nóbrega e Jô Soares
Elenco: 
Ronald GoliasOtello ZeloniRenata FronziJô SoaresCidinha Campos e Ricardo Corte Real

*(fontes Wikkipédia e site 
www.telehistoria.com.br)



Abaixo os links para um dos episódios mais marcantes da série, quando Jô Soares, Ronald Golias e Cia encontram o Rei Pelé!





quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Memórias da Emília

- A vida, Senhor Visconde, é um pisca-pisca. A gente nasce, isto é, começa a piscar. Quem pára de piscar, chegou ao fim, morreu. Piscar é abrir e fechar os olhos - viver é isso. É um dorme e acorda, dorme e acorda, até que dorme e não acorda mais.[...] A vida das gentes neste mundo, senhor sabugo, é isso. Um rosário de piscadas. Cada pisco é um dia. Pisca e mama; pisca e brinca; pisca e estuda; pisca e ama; pisca e cria filhos; pisca e geme os reumatismos; por fim pisca pela última vez e morre.- E depois que morre? - perguntou o Visconde.- Depois que morre, vira hipótese. É ou não é?
[Monteiro Lobato - Memórias de Emília]






SINOPSE
Memórias da Emília é um livro infantil escrito por Monteiro Lobato e publicado em 1936.
Emília, que é uma boneca muito da metida, resolve contar as suas memórias, ou melhor, "mentir" as suas memórias pois, afinal, ela acha que aquele que escreve sobre si próprio "tem um pé" na enganação, na mentira. Segundo ela, se a pessoa contar o que realmente aconteceu na sua vida, todos iriam perceber que a vida é igualzinha à de todo mundo. Para ajudá-la a realizar seu intento, Emília chama o Visconde de Sabugosa; ela ditaria as memórias e o Visconde as escreveria.
Este livro mostra a estória completa sobre o anjinho da asa quebrada, e de como o Capitão Gancho 
e o marinheiro Popeye (que naqueles tempos era malvado) queriam usar o anjinho para ganhar dinheiro. Emília também "contou" no livro o que teria acontecido se o anjinho não tivesse ido embora: ela iria fugir com os ingleses, com o anjinho e com o Visconde; iriam para Hollywood procurar emprego na Paramount
!
Capítulos:
Emília resolve escrever suas memórias.
As dificuldades do começo.
O Visconde começa a trabalhar para Emília.
Estória do anjinho da asa quebrada.
A estória do anjinho corre mundo.
O rei da Inglaterra manda ao sítio de Dona Benta um navio cheio de crianças.
O anjo falso.
Protesto das crianças inglesas.
Aparece Peter Pan.
Conversas com o anjinho verdadeiro.
O Almirante assombra-se com o que vê.
Onde aparece um famoso marinheiro.
Emília descobre o segredo de Popeye.
A couve da Emília e o espinafre de Popeye.
Pedrinho e Peter Pan preparam-se para a luta.
A grande luta.
Pedrinho e Peter Pan batem em Popeye.
Palavras do Almirante para Emília.
Diálogo entre a boneca e o Visconde.
A esperteza de Emília e a Rrsignação do milho.
A fuga do anjinho.
Grande tristeza.
Despedida da criançada e do Almirante Brown.
O Visconde desabafa.
Seu retrato da Emília.
A boneca pensa em Hollywood.
Minha viagem a Hollywood.
Dona Benta descobre as memórias da Emília.
Pedrinho e Narizinho aparecem no quarto.
Fim da aventura em Hollywood.
Últimas impressões de Emília.
Suas idéias sobre pessoas e coisas do sítio de Dona Benta.

Pensamentos sobre Pablo Neruda, Budismo e Física.


Outro dia eu estava me recordando de um soneto de Pablo Neruda:

Saberás que não te amo e que te amo
 que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.
Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.



Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.


O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Pablo Neruda, Cem sonetos de amor


Como artista, sempre tenho procurado encontrar a poesia que permeia a vida. Claro que não é um caminho simples a trilhar.

Se entregar à poesia significa, acima de tudo, se entregar ao passional, ao emocional, e essa atitude pode se tornar frequentemente (auto)destrutiva.

A verdade é que o mundo não é generoso com quem vive sua poesia. A poesia é fruição, num mundo que hoje é informação. Poesia é sonho e devaneio, num mundo que é realismo, racionalidade, pragmatismo. Poesia é o lúdico num mundo adulto. Poesia é comunhão, e portanto, generosidade, num mundo individualista e egoista. Como pode haver contemplação num mundo onde a velocidade e a rapidez são moedas?


Por isso, a escolha por seguir o caminho da poesia é um sacerdócio, um cruzamento complexo que termina num pêndulo paradoxal: de um lado, posso me tornar um romântico antiquado, piegas, um esteriótipo de sensibilidade aflorada, um sofredor ou apaixonado crônico; de outro posso endurecer, me fechar às mazelas e grandiosidades da vida e me proteger expurgando as emoções para me defender. É a velha questão: se abrirmos demais nossa sensibilidade e nos entregarmos às paixões (poesia!) corremos o risco de nos depararmos com a magnitude da beleza ou a crueldade dolorida do sofrimento. Mas se nos fecharmos, se para nos proteger nos privamos da entrega, nos anestesiamos e nos privamos de uma parte preciosa de nossa humanidade. Vale o risco?


Pensei muito sobre issa questão. Daí lembrei de Neruda, e esse soneto.

E pensei no real significado da poesia em minha vida.

Quando Heisenberg postulou sua "Teoria da Incerteza" (1927), estava desenvolvendo as bases para a mecânica quântica, que ele mesmo ajudaria a sedimentar ao lado de Niels Bohr na constatação de que não se pode medir ao mesmo tempo e com precisão duas quantidades físicas de uma partícula (como posição e velocidade, por exemplo). Isso levou à idéia de que não é possível tratar a realidade como algo previsível, ou equivale dizer que não conseguimos prever o comportamento da matéria entre uma observação e outra. Traduzindo: a realidade é um conjunto imprevisível e probabilistico de escolhas, e a realidade que conhecemos (a que observamos) é tão somente a que escolhemos, mas não é a única que existe. É como dizer que existem várias possibilidades, vários lados de uma mesma vida. Viver um deles só depende de nossa escolha, de nossa capacidade de nos posicionarmos num determinado momento. Posso escolher viver no branco. Posso até mesmo só ver o branco. Porém, não significa que não exista o preto. Ele está lá. Só não optamos por ele, por isso não o vemos.


Impressionante encontrarmos essas idéias como fundamentos enraizados no Budismo, no Xantoísmo e em outras filosofias orientais. Mas me emocionou mesmo encontrar esse pensamento num soneto. Que fala de amor (e - ainda bem - os sonetos não são sempre sobre o amor?). Poesia.
Saberás que não te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,

Que tipo de amor, que tipo de paixão, que tipo de poesia pode ser tão grande que humildemente assume que só quer existir, ser, não importando a realidade ou modo como exista?


Quão grande pode ser um espírito nega uma única verdade em prol de infinitas possibilidades?

Amo-te para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito


Quão forte deve ser uma personalidade para optar pela ausência, pela perda? Seria isso força, ou generosidade, abstenção, altrísmo, amor? Para mim, a simples idéia de que é possível estar presente, mesmo sem estar presente (estar presente na ausência) já é comovente o suficiente para começar a entender a natureza de uma vida em poesia.

a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem sua metade de frio.

No Japão feudal, quando dois Samurais marcavam um duelo de vida e morte, deveriam fincar no chão suas espadas e comparecer ao local marcado (pelas espadas) na data do duelo. Era uma questão de honra, de vida e morte. Mas, se por algum motivo um deles viesse a morrer antes do embate, e não pudesse comparecer ao duelo, era costume que um mensageiro (padrinho) do morto fosse até o local do duelo, e entregasse ao adversário uma mensagem com o teor "Presença em morte". Essa mensagem significa que o Samurai morreu, mas sua lembrança, ou espírito, compareceu ao compromisso marcado, e que por isso não teve uma conduta indigna, desonrada. Pode, portanto honrar seu adversário e ser sepultado como Samurai.


e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo ainda.

Shakespeare também nos deixou sua reflexão sobre a incerteza. Ser ou não ser. Nunca, nem em sonhos eu ousaria sequer questionar um ícone do pensamento humano, mas somente a título de reflexão, no contexto da poesia de Neruda seria "Ser E não ser". Pois não é isso o amar não amar? No fundo optamos sempre pela felicidade, mas nos esquecemos de que a incerteza sobre a infelicidade carrega tanta expectativa, tanta esperança, tantos sonhos quanto a própria felicidade. Quem é capaz de viver tamanha poesia a ponto de se entregar completamente ao risco da paixão, sem medo? Quem assumiria um caminho mais incerto que o amor e a felicidade, amando tanto a ponto de não amar apenas para estar mais próximo, até mesmo na infelicidade?


“Ser ou não ser – eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias –
E, combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer; dormir;
Só isso. E com o sono – dizem – extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer; dormir;
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.”

(William Shakespeare, “Hamlet”, ato lll, cena 1.)
Amo-te e não te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.
Nietzsche dizia que o povo grego era marcado por uma grande sensibilidade ao sofrimento e, ao mesmo tempo, tinha um grande talento artístico. Por isso, para tornar a vida mais intensa e alegre, os gregos criaram a arte da aparência e da beleza. Schiller, filósofo e dramaturgo alemão, do século 18, diz que estar emocionado nos dá prazer, mesmo quando essa emoção é dolorosa.
A dor, quando é experimentada como arte, nos deixa comovidos. A gente só é capaz de se comover com a própria dor quando aprende a se distanciar dela. A arte cria este afastamento. Ao contrário do que parece, quando o homem se relaciona com a dor, por meio da arte, ele se fortalece. A tragédia é uma afirmação da vida. Por isso, um artista é aquele que pula o abismo pela platéia. Se o artista vive a dor que tem que ser vivida, ele é o antídoto da dor no peito na platéia. O homem precisa de algum conhecimento para sobreviver. Mas para viver, ele precisa de arte. E de poesia.
Para mim, viver minha vida com poesia é imaginar que sou capaz de amar plenamente, incondicionalmente, generosamente. Tenha dor ou não. Tenha felicidade ou não.
Acredito que Pablo Neruda traduziu nesse soneto um pensamento e um desejo arquetípicos do ser humano. Por isso esse pensamento aparece na ciência com Heisemberg e sua física quântica, na filosofia oriental e no código de honra dos Samurais, ou mesmo na obra universal de um dramaturgo inglês. Pertence a todos nós.

O meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.